Nova tecnologia avalia padrões de atenção e comportamento de crianças de forma objetiva
O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode impactar a comunicação, a interação social e o comportamento. Seus sinais costumam surgir na infância e podem se manter ao longo da adolescência e da vida adulta, como ausência de contato visual ou expressões faciais, atraso na fala ou regressão de habilidades já adquiridas, pouco ou nenhum interesse por interações sociais, entre outros
O mês de abril é dedicado à conscientização sobre o TEA e reforça a importância da identificação precoce, além de destacar a necessidade de ampliar o acesso ao diagnóstico e ao cuidado.
Nas últimas décadas, o aumento de casos de autismo tem sido observado em todo o mundo, crescimento que pode ser atribuído a diferentes fatores, como a ampliação dos critérios diagnósticos e até mesmo mais acesso à informação por parte dos pais, dos educadores e dos profissionais de Saúde.
Recentemente, foi divulgado um novo recurso tecnológico que promete transformar a forma como o autismo é identificado nos primeiros anos de vida. Trata-se de um aparelho de rastreamento visual que vem sendo utilizado como ferramenta para auxiliar no diagnóstico do TEA. A tecnologia, aprovada pelo FDA (Food and Drug Administration), nos Estados Unidos, permite avaliar, de forma objetiva, padrões de atenção e comportamento em crianças.
De acordo com o neurologista infantil e neurofisiologista Hélio Van Der Linden, que é coordenador do Departamento Científico de Transtornos de Neurodesenvolvimento da Sociedade Brasileira de Neurologia Infantil (SBNI), o aparelho faz literalmente um mapa do contato visual da criança, para onde ela olha, seja em relação à face humana ou objetos, comparando inclusive o tempo em que a pessoa foca o olhar entre situações sociais e não sociais, como objetos. “O dispositivo compara os achados com o banco de dados (Inteligência Artificial) e gera um resultado que indica se aquele padrão de rastreamento visual captado é compatível ou não com diagnóstico de autismo”, explica.
Entre as principais vantagens desta inovação estão fácil aplicabilidade, tempo de aplicação, praticidade e confiabilidade dos resultados. “Para obter a aprovação do FDA, o equipamento foi submetido a diversos estudos que comprovaram sua sensibilidade e especificidade”, destaca.
Segundo o especialista, a tecnologia contribui para detectar características que nem sempre são fáceis de identificar por meio da avaliação clínica. “O aparelho pode ser usado como triagem em crianças que apresentam maior risco de TEA, como prematuros, irmãos de crianças com TEA, entre outras situações. Com a popularização e disseminação dos dispositivos, pode ser possível avaliar em larga escala, sem depender de médicos qualificados, que são escassos e nem sempre disponíveis. A tecnologia permite analisar o padrão de rastreamento visual, para onde a criança olha. Isso revela padrões distintos entre indivíduos com e sem TEA”, afirma
Hélio Van Der Linden também ressalta que há um aumento real de diagnósticos, com várias possibilidades, sejam genéticas ou ambientais, mas ainda em estudo. “Algumas coisas já sabemos, como a idade materna e paterna mais elevada para ter filhos, uso de algumas medicações na gravidez, como o Valproato de Sódio, prematuridade, diabetes gestacional, sangramentos e infecções durante a gravidez. Tudo isso tem uma maior associação com o risco mais elevado de TEA”, acrescenta.
Apesar dos avanços tecnológicos, o neurologista infantil reforça que a avaliação clínica continua sendo essencial. “Existem bons instrumentos diagnósticos, mas muitos não são aplicados em crianças menores de 24 meses e alguns exigem treinamento especializado. Uma avaliação feita por um profissional experiente ainda é a melhor oportunidade para um diagnóstico precoce. Além disso, existem alguns desafios para a implementação de novas tecnologias como essa no Brasil, como o alto custo e a burocracia”, conclui.
Matéria publicada na edição 197 (Março/ Abril de 2026) da Revista da APM Piracicaba