A expansão acelerada de escolas médicas, muitas sem estrutura assistencial robusta ou corpo docente qualificado, vem produzindo profissionais inseguros para lidar com a complexidade da prática clínica real. O resultado não é apenas um problema de qualidade individual, é um desarranjo sistêmico. Diante da incerteza, encaminha-se mais. Diante da dúvida, solicita-se mais exames. A clínica perde espaço para a intermediação.
Nesse cenário, a Atenção Primária à Saúde, ao ampliar o acesso, o que é, em essência, uma conquista civilizatória, passa a operar sob tensão. Mais acesso, sem a correspondente resolutividade, gera mais encaminhamentos. E mais encaminhamentos, muitas vezes desnecessários ou mal indicados, produzem filas artificiais, sobrecarga dos especialistas e, paradoxalmente, escassez onde deveria haver suficiência.
Não se trata de culpar o médico jovem, nem de frear o acesso da população. Trata-se de reconhecer que estamos substituindo formação por volume, coordenação por fragmentação e cuidado por fluxo. Sem requalificar a formação médica, fortalecer a clínica na APS e estruturar melhor os critérios de regulação, continuaremos alimentando um sistema onde o excesso e a falta coexistem, e o paciente segue esperando.
“… Sem requalificar a formação médica, fortalecer a clínica na APS e estruturar melhor os critérios de regulação, continuaremos alimentando um sistema onde o excesso e a falta coexistem, e o paciente segue esperando.”
Alex Gonçalves, presidente eleito da Associação Paulista de Medicina – Piracicaba
Fonte: Folha de Piracicaba – Confira