Junho Laranja é o mês de conscientização, prevenção e diagnóstico precoce da leucemia e da anemia, que tem um impacto significativo na neuroplasticidade cerebral, prejudicando o desenvolvimento cognitivo e funcional das crianças
Nas últimas décadas, observou-se um aumento expressivo dos diagnósticos de transtornos do neurodesenvolvimento, especialmente do Transtorno do Espectro Autista (TEA), Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), transtornos motores e alterações de linguagem. Paralelamente, cresce o reconhecimento do Transtorno Alimentar Restritivo/Evitativo (TARE/ARFID), frequentemente associado à hiperseletividade alimentar, disfunções sensoriais e prejuízo nutricional.
Neste contexto, aumenta a preocupação do pediatra quanto ao impacto das deficiências nutricionais, particularmente da deficiência de ferro, sobre a neuroplasticidade cerebral durante períodos críticos do desenvolvimento infantil.
O ferro participa de múltiplos processos neurobiológicos essenciais, incluindo mielinização, metabolismo mitocondrial, síntese de neurotransmissores, plasticidade sináptica e funcionamento executivo. Sua deficiência pode repercutir negativamente sobre cognição, linguagem, atenção, coordenação motora e comportamento adaptativo, mesmo antes do aparecimento de anemia franca.
Crianças com TEA frequentemente apresentam seletividade alimentar grave, com restrição de proteínas, carnes, frutas e vegetais, aumentando o risco de ferritina reduzida, microcitose e anemia ferropriva. Tais alterações podem agravar sintomas neurocomportamentais, piorar sono, irritabilidade, autorregulação emocional e a capacidade de aprendizagem.
A infância representa um período crítico de neuroplasticidade cerebral. Neste cenário, o pediatra assume papel não apenas diagnóstico, mas também neuroprotetor, buscando identificar precocemente fatores metabólicos potencialmente lesivos ao cérebro em desenvolvimento.
Modelos recentes envolvendo metabolismo mitocondrial e imunometabolismo – incluindo o modelo metabólico de “3 hits”, proposto por Robert K. Naviaux* – ampliam a compreensão da interação entre predisposição genética, fatores ambientais e disfunção metabólica nos transtornos do neurodesenvolvimento.
Assim, torna-se fundamental ampliar a investigação clínica e laboratorial de crianças neurodivergentes com seletividade alimentar, incluindo avaliação de hemograma, ferritina, ferro sérico e outros micronutrientes.
Preservar a neuroplasticidade cerebral passou a representar uma das principais responsabilidades da Pediatria contemporânea. Mais do que tratar sintomas, o pediatra moderno precisa proteger trajetórias neuroevolutivas.
Romar William Cullen Dellapiazza (CRM-SP: 53.145 | RQE-SP: 34.701/34.701-1), Neurologista pediátrico
Matéria publicada na edição 198 (Maio/ Junho de 2026) da Revista da APM Piracicaba