Hamnet: A Vida Antes de Hamlet

“Hamnet: A Vida Antes de Hamlet”, título adotado nos cinemas do Brasil, se apresenta como um drama histórico centrado em Agnes, esposa de William Shakespeare, e na morte do filho do casal, Hamnet. Dirigido por Chloé Zhao, vencedora do Oscar por “Nomadland”, o longa adapta o romance homônimo de Maggie O’Farrell, que também assina o roteiro ao lado da cineasta.

A força mais imediata da produção está no elenco. Jessie Buckley interpreta Agnes e concentra o eixo emocional da narrativa, enquanto Paul Mescal vive William Shakespeare com a gravidade necessária para sustentar o peso simbólico da história. Ao redor deles, surgem Emily Watson, Joe Alwyn, Jacobi Jupe, Noah Jupe e outros nomes que ampliam a densidade familiar do drama. Esse desenho de elenco chama atenção porque não depende apenas de estrelas em evidência, mas de uma composição que parece pensada para dar espessura humana a uma trama sobre perda, memória e transformação da dor em arte.

Entre as curiosidades mais relevantes, a principal talvez seja o próprio recorte narrativo: em vez de construir uma cinebiografia convencional sobre Shakespeare, o filme desloca o olhar para Agnes e para a intimidade da família. O resultado, ao menos em tese, é uma obra menos interessada no monumento literário e mais comprometida com a dimensão doméstica do trauma. Essa escolha renova o imaginário em torno de Shakespeare ao sugerir que a grande arte não nasce apenas de genialidade abstrata, mas também de vínculos afetivos, ausências e feridas privadas.

Outro aspecto pertinente está nos bastidores. O longa reúne produtores como Sam Mendes e Steven Spielberg, associação que sinaliza não se tratar de uma produção modesta ou apenas literária, mas de um filme concebido para circular com força no mercado. A filmagem começou em 2024, com produção realizada no País de Gales, e o lançamento internacional foi desenhado para o fim de 2025, estratégia afinada com a temporada de prêmios e com o calendário típico de obras que buscam repercussão crítica.

No Brasil, o filme passou pelos cinemas e depois ganhou janela digital. A produção ficou disponível para aluguel digital no Amazon Prime Video a partir de março de 2026. Tive o prazer de ver nas nossas salas de cinema piracicabanas. E depois rever, pensando que haveria menos lágrimas a turvar minha visão de uma segunda vez, mas não tive sucesso. Tentei de novo no streaming, mas as lágrimas parecem ser inevitáveis em mim nesse filme.

No campo das premiações, Hamnet consolidou-se como um dos títulos mais fortes de sua temporada. A lista mostra que o filme venceu o Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama e rendeu a Jessie Buckley o prêmio de Melhor Atriz em Filme de Drama. Registramse, ainda, vitórias importantes no BAFTA, com o prêmio de Outstanding British Film e o troféu de Melhor Atriz para Buckley, além de oito indicações ao Oscar e da conquista do Oscar de Melhor Atriz. O longa também apareceu entre os dez melhores filmes do ano para o American Film Institute e acumulou reconhecimento em festivais e associações de críticos, o que reforça sua imagem de obra prestigiada não apenas pela indústria, mas também pela crítica especializada.

Do ponto de vista estético, o projeto parece seguir a vocação contemplativa de Chloé Zhao, cineasta acostumada a trabalhar com silêncio, paisagem, interioridade e sensações de suspensão. Essa inclinação combina com um drama fundamentado no luto, embora sob o risco de transformar a delicadeza visual em excesso de solenidade. No fim, o filme parece alcançar uma forma rara de comoção serena, quando se observa a reação da plateia. Não vi ninguém sair desse filme sem que estivesse chorando copiosamente.

A impressão mais interessante em Hamnet é a de que o título não chama atenção apenas por sua história, mas pelo modo como foi embalado como acontecimento cultural. Há nele o peso de um romance consagrado, a assinatura de uma diretora premiada, um elenco de apelo expressivo e uma trajetória de premiações que fortalece sua posição no circuito internacional. Ainda assim, seu valor dependerá menos do currículo acumulado e mais da capacidade de transformar erudição e prestígio em experiência emocional genuína.

A cereja do bolo me parece a escalação de dois irmãos na vida real: Jacobi Jupe como o jovem Hamnet e de seu irmão Noah Jupe para viver o Hamlet do teatro. Essa sincronicidade permitiu que a transição entre o filho real falecido e a obra de arte criada pelo pai em sua homenagem ganhasse uma camada profunda de semelhança física e conexão legítima, transposta magistralmente à audiência.

Por isso tudo, não perca Hamnet, você nunca mais verá Shakespeare com os mesmos olhos; os meus ficam marejados só de reviver as emoções emanadas por esse belíssimo filme enquanto escrevo.

Texto: Mariângela Di Donato Catandi – Professora da Faculdade de Medicina da Anhembi Morumbi/Campus Piracicaba e cinéfila | CRM-SP: 57.257 / RQE-SP: 13.913 e 116.967 – Especialista em Otorrinolaringologia e Medicina de Família e Comunidade

Matéria publicada na edição 198 (Maio/ Junho de 2026) da Revista da APM Piracicaba